Eu conheci Maurício Accioly Neves há coisa de 30 anos, quando ele era funcionário do IRB, no escritório de São Paulo. Ele regulador de sinistros, eu o executivo brasileiro da Hannover Internacional de Seguros, atual HDI, recém-chegada no Brasil, numa joint-venture com a Companhia Internacional de Seguros, então uma das mais sólidas, respeitadas e bem sucedidas seguradoras brasileiras.
É curioso como a morte do Maurício resgata a história do setor, e me traz de volta as emoções de uma longa estrada percorrida nestas décadas de dedicação à atividade seguradora, como executivo de companhia de seguro, corretor de seguros, consultor, advogado, jornalista e radialista.
De forma mais ou menos intensa, sempre mantivemos contato, primeiro profissional e depois, pessoal, num belo nível de amizade por ele e pela Laura, sua esposa e minha amiga de infância, filha de amigos da vida inteira de meus pais e meus tios.
Se há uma palavra para definir o Maurício, é cortesia. Nunca em 30 anos eu o vi cometer uma indelicadeza contra alguém. Pelo contrário, sempre bem educado e polido, até quando ele discordava, ou discutia, o fazia com elegância e boa-educação.
Mauricio teve uma carreira de sucesso, tanto no IRB, como na iniciativa privada. No ressegurador, chegou a chefe do escritório de São Paulo, onde eu o visitava, algumas vezes inclusive sem motivo específico, exceto a amizade e o prazer de conversar com ele. E na iniciativa privada, se aposentou presidente da Real Seguros, companhia seguradora do grupo do Banco Real, à época já pertencente ao banco holandês ABN-Anro.
Não é pouco. Mas mais do que isso, tanto num, como noutro setor, Maurício foi muito bem sucedido, deixando um nome reconhecido e uma carreira exemplar para as gerações que estão chegando agora.
Jeitoso, o baiano Maurício, na medida do possível, buscava uma solução consensual para os problemas ou divergências. Todavia, quando isso não acontecia, não hesitava em ser firme e chamar para si a responsabilidade pela solução, colocada de forma clara, levando em consideração os diferentes ângulos do problema.
Mas se Maurício era um profissional exemplar, também foi um chefe de família consciente de sua condição, bom pai e bom marido, carinhoso com os filhos, fossem os seus, os da Laura ou os em comum, todos tratados da mesma forma, imparcial e, na medida da falibilidade humana, justa.
É lembrar a tristeza de todos durante o velório para ficar claro o que eu quero dizer.
Maurício sai de cena como um abençoado por Deus. Teve uma morte súbita e sem sofrimento, num infarto fulminante que o levou antes que ele entendesse o que estava acontecendo.
É destes que Deus é amigo de verdade. Não há nada mais triste do que uma morte longa, num processo de sofrimento e perda da dignidade humana. Deus poupou o nosso amigo de passar por isso.
É verdade que, para quem fica, uma partida absolutamente inesperada, na hora, é um baque terrível. Mas com o tempo, na medida em que a dor da ausência vai serenando, mesmo para os parentes mais próximos, a partida súbita, ainda que cercada de eventuais sentimentos de abandono, e até traição, é a melhor.
Pouca coisa é mais doída e constrangedora que assistir a decadência de alguém especial, alguém que nos é caro. Maurício sai de cena deixando a imagem do homem bom e correto, do amigo leal, do profissional ético e competente, do chefe de família amoroso. Sai como sempre viveu: querido e respeitado, deixando pra gente uma lembrança boa de um ser humano bonito e muito querido.
Meu amigo, descanse em paz e que a eternidade te seja leve.